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As outras dores do parto

ter, 13/03/2012 - 12:43
 

Como pacientes são maltratadas e por que a cesárea, a episiotomia e o uso de ocitocina são considerados abusos

Era final de tarde de uma quarta-feira chuvosa quando Ana Cristina percebeu que estava na hora. Dirigiu-se ao Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, no Belenzinho, zona leste paulistana, e, com dores e inquieta, aguardou pelo atendimento. “Eles tratam mal quem faz escândalo”, temia. Depois de esperar por quatro horas, na companhia da mãe, foi informada: não havia vagas e deveria procurar outro lugar para ter o bebê.

Telefonou para o irmão e pediu ajuda. Precisariam atravessar a cidade para ir até a Santa Casa de Misericórdia, na região central – reconhecida pela qualidade do atendimento, apesar da quantidade enorme de pacientes. Finalmente, à 1h da manhã, Ana conheceu João, seu primeiro filho.

Frases como “Na hora de fazer não doeu, né?”, “Não fechou as pernas na hora certa, agora aguenta!” estão entre as mais lembradas pelas entrevistadas na pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, de 2010, feita pela Fundação Perseu Abramo e pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). A cada quatro gestantes, uma sofreu maus-tratos quando deu à luz, aponta o estudo. Os relatos são de exame de toque doloroso, negativa de alívio da dor, falta de explicação para os procedimentos adotados, grosserias e ausência de ­atendimento. Essa via crucis é uma face da violência a que muitas mulheres em todo o mundo, em especial as mais pobres, estão expostas na hora do parto. No momento mais importante de sua vida, em que deveria prevalecer o sentimento de felicidade pela chegada do filho, são vítimas de negligência, discriminação social, violência verbal (grosserias, ameaças, reprimendas, gritos), humilhação intencional e violência física, como a falta de medicação anestésica quando indicada pelo médico, e até mesmo abuso sexual.

Para o sociólogo e coordenador da pesquisa, Gustavo Venturi, da Universidade de São Paulo (USP), nem todas têm consciência de estar sendo maltratadas. “Mulheres com menor escolaridade não consideram ter sido desrespeitadas. Para elas, que se baseiam no que ouviram da experiência de amigas e parentes próximas, o parto em hospital é assim mesmo. Vai doer; vão gritar com ela. Há até a percepção de algo negativo, mas por ser visto com naturalidade não é entendido como maus-tratos” , afirma. Isso explica em parte por que muitas, assustadas, sufocam sua maneira de expressar a dor e, caladas, chegam a morder a si mesmas.

Segundo pesquisa da psicóloga Janaína Marques de Aguiar, da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca, ligada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a violência institucional nas maternidades é determinada, em parte, por uma discriminação de gênero, que transforma diferenças – ser mulher, pobre de baixa escolaridade – em desigualdades. Quando é negra, sofre ainda discriminação racial.

Outro aspecto grave é a persistência de uma relação hierárquica na qual a paciente é tratada como uma peça de intervenção profissional, e não sujeito dos próprios atos e decisões sobre o que lhe acontece. Isso tudo num contexto histórico e ideológico que coloca a mulher num papel inferior tanto do ponto de vista físico como social, no qual seu corpo e sua sexualidade tornam-se objeto de controle da medicina.

A desinformação é outro fator que contribui para a violência na maternidade. “A maioria das mulheres vai para o parto sem nenhuma informação”, aponta Simone Diniz, professora do Departamento de Saúde Materno-Infantil da Faculdade de Saúde Pública da USP. “Muitas são convencidas a aceitar a cesárea na hora, momento de dor aguda não apropriado para a reflexão sobre qual é a melhor decisão.” Esse tipo de parto, rápido e prático apenas para o médico, pois na maioria das vezes é desnecessário e expõe a parturiente aos riscos que envolvem uma cirurgia, vem sendo considerado uma das maiores violências.

De acordo com o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e o Sistema de Informação Hospitalar (SIH/SUS), todo ano são registrados cerca de 3 milhões de nascimentos no Brasil, dos quais 46,6% por parto cirúrgico. Em 2007, no sistema público, a taxa de cesarianas foi de 35% e, no atendimento privado, de 80%. O limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) é 15%. O índice brasileiro é superior aos registrados em qualquer outro país do mundo. Segundo a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, de 2006, a maioria das cesarianas é agendada com antecedência.

As gestantes que conseguem ter parto natural são, na maioria das vezes, submetidas à episiotomia, procedimento condenado internacionalmente, no qual as mulheres têm a vulva e a vagina cortadas e costuradas sem necessidade. Hoje se sabe que a recuperação é mais rápida quando há laceração muscular devido à pressão natural da cabeça do bebê, e não quando o corte é feito artificialmente, por meio de bisturi. Outro procedimento agressivo é a administração excessiva do hormônio ocitocina, que potencializa as contrações uterinas – e as dores – para que o nascimento seja mais rápido.

“O trabalho de parto, que pode durar de oito a dez horas, é uma oportunidade para a equipe de saúde conversar e estabelecer um vínculo com as pacientes”, opina Elder Lanzani Freitas, estudante da Faculdade de Medicina da USP.

O Sistema Único de Saúde (SUS) e a Agência Nacional de Saúde (ANS), que regulamenta as operadoras de saúde no Brasil, já realizam algumas ações para a humanização do parto e a conscientização de médicos e pacientes.

Desde 2000, o programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais pretende melhorar a atenção ao parto domiciliar e busca sensibilizar os gestores do SUS e profissionais de saúde para que reconheçam as parteiras como parceiras e desenvolvam ações para apoiar e qualificar o trabalho. Nesse caso, entende-se por humanização o parto natural centrado na individualidade da mulher e com a abordagem de tecnologia adequada. Seu predomínio significará que as taxas de maus-tratos na hora do nascimento terão diminuído.

Grávida: o que fazer?

Muitos dos abusos cometidos contra as mulheres não aconteceriam se elas estivessem bem informadas. Assim, o primeiro passo é entender o próprio corpo e o que acontece com ele na gravidez. Cada uma deve ter capacidade de escolher o que é melhor para si, não para a equipe médica ou para o marido. Também se deve lembrar que, por milhares de anos, bebês nasceram sem a necessidade de uma cirurgia: partos normais eram o bastante.

Com isso em conta, cada grávida poderá saber como funciona uma cesárea e compará-la ao parto normal. É importante conversar com o médico sobre o uso de ocitocina e sobre a prática da episiotomia e opinar contra ou a favor.

A lei brasileira garante a toda grávida o direito de ter um acompanhante na hora do parto. Deve-se exigi-lo. Além de auxiliar a mulher nessa hora, a pessoa pode intimidar ou evitar qualquer tipo de violência por parte da equipe médica.

Caso a paciente sinta que sofreu algum ato de violência, deve-se denunciar prontamente. Gritos, tapas e mau atendimento em um momento tão importante não devem ser considerados práticas-padrão. E toda grávida tem o direito de expressar dor, sempre.

 

Fotografia humanizada

Fundador da ImageMagica, organização brasileira que promove educação, cultura e saúde por meio da fotografia, o fotógrafo André François documentou de norte a sul do país manifestações da humanização da medicina em 25 mil fotos. O resultado é o livro Cuidar – Um documentário sobre a Medicina Humanizada no Brasil. São dele as fotos que ilustram esta reportagem. A ImageMagica, reconhecida como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), sem fins lucrativos, tem um vasto material sobre diversos aspectos do direito humano à saúde. O trabalho pode ser visto no site www.imagemagica.org.

Violência: como denunciar

A mulher vítima de violência na hora do parto pode e deve ligar para o número 180, da Central de Atendimento da Secretaria de Políticas para as Mulheres. A reportagem fez o teste e encontrou um atendimento rápido e eficiente. Funciona 24 horas, todos os dias. As atendentes são treinadas. O serviço consiste não no registro de denúncias, mas em ouvir a mulher e orientar, instruir, sobre como, onde e a quem procurar em busca de ajuda e como fazer para denunciar de maneira mais eficiente o hospital, médicos, enfermeiros e demais profissionais que a atenderam. A secretaria informa que a comunicação não precisa ser feita exclusivamente pela vítima, muitas vezes fragilizada e traumatizada. Parentes e amigos podem ligar para o 180. E quanto antes melhor, pois é possível até tentar um flagrante. As Delegacias da Mulher da localidade mais próxima também estão entre os locais em que a denúncia deve ser feita.

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A pesquisa

. Para conhecer o capítulo Saúde reprodutiva e abortamento/Gravidez, filhos e violência institucional no parto da pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado, clique aqui

. Para conhecer a íntegra da pesquisa, realizada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo e pelo Serviço Social do Comércio (Sesc), clique aqui

 

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