O cotidiano de uma escritora negra na periferia

20/mar/2017

 

Por Ana Luíza Matos Oliveira

O diário de Carolina Maria de Jesus, escrito entre 1955 e 1959, relata o cotidiano de uma mulher mãe, negra e pobre para sobreviver na periferia de São Paulo e a constante dificuldade de viver em um país machista e racista, o que por vezes foi empecilho para o reconhecimento de seu talento como escritora. Carolina era considerada “diferente” em seu meio porque lia e escrevia e era financeiramente independente de homens.

A vida de Carolina parece não mudar nos cinco anos do diário: ao início de um novo dia ela está na estaca zero, sempre. Somente com seu esforço (que é enorme), ela não consegue melhorar a sua vida e a dos filhos. A preocupação é constante se vai achar papel para catar, se a chuva a vai permitir trabalhar, se vai ter algum trocado para comprar comida ou se vai conseguir achar comida que não esteja podre no lixo. Ela até considera o suicídio em diversas vezes e afirma: “não sei como havemos de fazer. Se a gente trabalha passa fome, se não trabalha passa fome”. É a realidade da informalidade e da exclusão social, que contrasta com a meritocracia e os valores propagados pelo capitalismo.

O livro mostra importância das políticas públicas para acesso aos direitos sociais: na favela, sofre-se extorsão para ter acesso a direitos básicos como luz e água. A doença é presença constante e com ela vem o medo de não ter dinheiro para “pagar médico”. Saneamento básico ou moradia digna são artigos de “sonho”: Carolina diz que um de seus filhos “tem pretensões”, pois quer residir “em alvenaria” e não em um barracão precário como o seu, em que falta privacidade e sobram goteiras. Sua filha também não quer viver na favela, o “quarto de despejo” de São Paulo. A favela “contrasta com São Paulo”, como se a favela não fosse São Paulo e como se o asfalto dela não dependesse para existir.

A violência física, verbal e sexual está sempre presente na favela: “A favela é de morte!”. As violências e a dureza da vida na exclusão social atingem a todos: “quem reside na favela não tem quadra de vida. Não tem infância, juventude e maturidade”.

Alguns operários dizem a Carolina que, já que ela gosta de escrever, deveria instigar o povo a adotar outro regime. Um sapateiro lhe pergunta se seu livro “é comunista”. Ela diz que não, que “é realista”, ao que ele retruca: “não é aconselhável escrever a realidade”. Mas seu “realismo” nos instiga ainda hoje a mudar a realidade.

Livro: Quarto de despejo: diário de uma favelada.
Autora: Carolina Maria de Jesus. Editora Ática, São Paulo, 2007

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