A luta por moradia nas telas

20/abr/2017

Por Vilma Bokany

Era o Hotel Cambridge, filme de Eliane Caffe, aborda as tensões dos que lutam por moradia, por meio da narrativa dos que habitam uma das ocupações de São Paulo: o Hotel Cambridge, um tradicional edifício localizado na Rua Álvaro de Carvalho, 53, ao lado do metrô Anhangabaú, na região central de São Paulo. Fechado e abandonado por oito anos, sem cumprir função social, o prédio foi ocupado pelo Movimento Sem Teto do Centro, em novembro de 2012, e hoje abriga 170 famílias.

O filme expõe a dinâmica da especulação imobiliária e aborda o dia-a-dia dos sem-teto e refugiados que ocupam o hotel, às vésperas da sua reintegração de posse. Diante da ameaça de despejo pelo Estado, mostra os confrontos com a polícia e a Justiça, bem como as tensões de identidade, preocupações, afetos e relações que envolvem diferentes situações de ocupação. Lá estão presentes não só a condição de miséria dos sem-teto, mas também a riqueza cultural de refugiados de lugares como do Congo, Colômbia, Síria e imigrantes da Palestina, que revelam diferentes visões de mundo e maneiras de lidar com a situação de privação e exclusão pelas quais passam.

O filme apresenta interessantes recursos de metalinguagem com a constante comunicação dos refugiados com suas famílias via internet, o que permite compartilhar parte da realidade de suas cidades de origem. Mostra também, pelo mesmo recurso, a elaboração de vídeos para um blog, e intervenções artísticas, teatro e dança que ocorrem na ocupação. Outro elemento instigante é a mistura de realidade e ficção ao apresentar atores consagrados, como Suely Franco e José Dumont (de Narradores de Javé, 2003, da mesma diretora), contracenando com não atores, como Carmen da Silva Ferreira, líder do Movimento Frente de Luta por Moradia (FLM) e os refugiados e moradores da ocupação.

O local da ocupação também é simbólico, um hotel como moradia, traduz o caráter provisório, de curta permanência e transitoriedade como parte da vida dos refugiados e sem-teto. Mostra também as “gambiarras” para estabelecer os arranjos necessários para a vida em comum na ocupação.

Poucos filmes são tão atuais e trazem à tona tantas tensões políticas do Brasil. Ao trazer a luta por moradia, a diretora Eliane Caffe coloca a escassez de direitos que permeia a vida tanto de refugiados imigrantes como dos sem-teto - uns estrangeiros dentro de sua própria pátria, outros estrangeiros “fora” de suas pátrias de origem, tão bem expressas na fala da personagem e líder da FML, Carmen da Silva Ferreira: “Brasileiro, estrangeiro... somos todos refugiados, refugiados da falta dos nossos direitos”.

É preciso que a realidade saia das ruas e invada as telas para que a luta por moradia possa ser vista em todas as suas contradições.

Era o Hotel Cambridge
Direção: Eliane Caffé
Gênero: Drama
Duração: 99 minutos
Com: Carmen Silva, Isam Ahmad Issa e José Dumont
Classificação: 12 anos

 

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