Luís Vitagliano: Quem nunca postou por um like, que atire a primeira crítica

20/mar/2017

Por Luís Vitagliano

Sinceramente, não me estranha Leandro Karnal tirar uma foto com Sérgio Moro – explico os motivos a seguir –, mas me estranha muito que as pessoas que se identificam com posições progressistas tenham Karnal como referência ou, mais precisamente, com reverência.

Karnal era (não sei se ainda o é) o que chamamos de autoridade de rede. Intelectual? Formador de opinião? Talvez precisemos de um desses novos conceitos para trabalhar a comunicação digital das mídias sociais do século XXI em tempos de pós-verdades. Karnal era apenas um professor que tinha discurso rebuscado, com boa capacidade oratória e nenhuma inibição diante da câmera.

Mas, como ironizou um amigo, “quem é Leandro Karnal na fila do pão?”.

É realmente motivo de estranhamento que alguém nada de extraordinário que basicamente se comporta como autoridade intelectual tenha atingido um pico de cerca de 3 milhões de seguidores nas redes sociais. É também de se estranhar que, depois da fatídica foto com o juiz Sérgio Moro, tenha sobrado em sua rede (nada) “míseros” menos de um milhão de seguidores.

Karnal tornou-se uma autoridade de rede porque conseguia expressar muitos anseios que navegadores tinham dificuldade de comunicar. O que ele faz e diz nas redes sociais passou a influenciar na opinião, comportamento e principalmente nas emoções cotidiana das pessoas e gerou seguidores. Para ser autoridade de rede não é necessário ter conteúdo intelectual ou coerência, basta ter forma: expressar determinadas posições que encontram eco nos mais diversos perfis espalhados aleatoriamente nas mídias sociais; e logo você será seguido por um numero considerável de pessoas.

Talvez nem o próprio Leandro Karnal tivesse noção do alcance das suas postagens e nem do perfil do público que o acompanha. Mas, de forma muito simplificada, depois da sua trágica foto e pelas múltiplas manifestações de repúdio geradas, podemos perceber que ele tinha expressivo alcance em educadores do ensino básico e fundamental que se colocam num campo progressista de opiniões políticas. Portanto, são pessoas que o compartilharam muito sua opinião contra a escola sem partido e contra a volta da ditadura, que acharam e se viram nas postagens onde Karnal se dizia frustrado como professor quando alguém defende uma ditadura militar. Obviamente essas posições afastaram direitosos, mas foi fundamental para conquistar os professores e outras pessoas engajadas, com visão progressista e que combatem o autoritarismo que sempre quer pautar (principalmente as escolas) as redes sociais.

Quando questionado em relação a suas posições políticas, Leandro Karnal se colocava politicamente no centro, liberal nos costumes e sem interesse partidário. O isento: não se manifestar para não se comprometer. O que em muitos casos é uma vantagem e em alguns momentos é um risco. Vantagem porque, ao não se comprometer, os moderados de todos os lados te abrem espaço; mas pode ser um risco porque para manter-se nessa posição não é possível ir contra as posições mais populares.

O grande problema do isento é que ele é um ignorante político. E a grande contradição que essa epifania de debates sobre Karnal provocou foi nos mostrar que os setores progressistas não podem tornar o isentão parte de suas referências.

Conheço vários professores e amigos que tentam se comportar como isentos no debate político. Alguns porque, como a maioria de nós, não querem se indispor defendendo suas posições. Neste caso é justo que se resguardem. No caso de Karnal e alguns outros articulistas, defender posições que estão moderadamente entre um lado e outro é uma estratégia divulgada como resultante da razão iluminista e racional, mas esconde o fato de que se tornam produtos da rede. São verdadeiros caçadores de like. Sujeitam suas posição ao padrão dominante que vai lhes trazer popularidade.

Assim querem ser vistos os isentos que falam de política e que procuram com essa postura ser autoridades de rede com público dilatado. Não são formadores de opinião porque submetem suas postagens ao padrão e não argumentam em função da formação da opinião. É cômodo e eficiente em tempos de debate quente e radical que vivemos hoje.

Mas, de fato, qualquer um que se manifesta publicamente sobre a conjuntura política, se manifesta a partir de uma posição. Isso é inevitável – porque a pesquisa histórica e metodológica permite a defesa da objetividade, mas a conjuntura é pura análise perspectiva que se alimenta de fontes especulativas.

No final, essas figuras não podem ser vistas como isentas. Estão se comportando como produtos e não como intelectuais, porque os intelectuais assumem sua visão de mundo e as defendem a partir da própria parcialidade.

No caso dos isentos, eles são verdadeiros caçadores de like. Gostam e lucram com o prestigio de serem compartilhados. Não formam opinião, não defendem uma perspectiva, não apresentam sua cosmovisão, porque na verdade modulam-se com movimentos pendulares: hora pra um lado, hora pra outro. Não importa o que dizem desde que causem algum conforto aos seus consumidores. E o prestígio que conquistam com isso os permite espaço, convites e pagamentos.

Karnal talvez seja o melhor exemplo desse tipo de manifestação nas redes. Coisa que muito professor por ai tenta emplacar ou imitar. Não é o único. Ao se colocar como isento, é estranho que tenha convencido tantos setores e representantes dos temas progressistas. São tempos malucos que só podemos entender quando analisamos os mapas de redes e vemos como as opiniões da direita radical e tacanha tornou-se hegemônica no universo das redes. Isso não aconteceu espontaneamente. Empresas e corporações criaram autoridades de redes tacanhas com objetivos específicos e que se manifestam politicamente sem capacidade de análise e sem compromisso ético.

Para controlar as redes, as empresas passaram também a controlar a opinião política. A reação veio e o público progressista passou a buscar referências entre as poucas opiniões progressistas. Nesse campo pouco explorado pela opinião pública progressista, vozes como a de Karnal acabaram aparecendo (mesmo não sendo progressista tinha algumas posições que permitiam tal confusão a partir do produto incolor). Mas, ao caçar likes com a foto de um popular representante das arbitrariedades que ele próprio criticava, Karnal escancarou as contradições da sua imagem. O golpe (não o parlamentar, mas legítimo e popular) deve ter sido forte: além dos seguidores perdidos, culpar o vinho e apagar a foto só veio a piorar a crise de imagem.

A aura de Karnal ter se diluído na parcialidade de Moro não é preocupante. É até normal, mas o que preocupa é a orfandade das posições progressistas que a rede tem constituído. E, nesse sentido, uma distopia criada pela direita arbitrária que tenta criminalizar as posições políticas na rede. A necessidade de combater e defender direitos das minorias encontra no mundo real algum respaldo. Enquanto é possível encontrar representantes no mundo real, mas não necessariamente nas redes

Agora, independente de todo esse debate, um assunto me estranhou muito e confesso que não tenho resposta a isso: se considerarmos que a Rede Globo forma opiniões e que as pesquisas mostram que o juiz Sérgio Moro era quase que uma unanimidade nacional, por que a foto ao lado dele causou reação tão forte, rápida e massiva? Ou não estamos entendendo nada de nada ou a relação entre as redes e a realidade está muito distorcida.

Luís Vitagliano é cientista político, integra a Área do Conhecimento da FPA


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